terça-feira, 20 de setembro de 2016

Terapeuta sugere que paralisia pode ter levado Domingos à morte no rio; entenda

Globo/Pedro Curi
O ator Domingos Montagner morreu na última quinta-feira (15) depois de se afogar no Rio São Francisco, na cidade de Canindé (SE). A atriz e colega de elenco Camila Pitanga estava com ele no momento do acidente e contou em entrevista ao programa "Fantástico", da Rede Globo, os detalhes da tragédia.
Com base no depoimento, o terapeuta Jordan Campos sugeriu, em um post que se tornou viral, que o que impediu Domingos de reagir foi uma “crise de paralisia traumática”. Conversamos com especialistas para entender se essa é mesmo uma possível explicação para o acontecido.


Depoimento de Camila Pitanga sobre tragédia

Em entrevista ao "Fantástico", Camila Pitanga contou que a ideia inicial não era nadar no local onde o acidente aconteceu. "A gente nem ia para lá, íamos para outro lugar, mas acabamos achando mais simples ir ali", disse a atriz.


Camila contou que os dois pularam de uma pedra e nadavam a favor de uma correnteza muito suave num lugar mais profundo, longe da faixa de areia. Quando tentaram sair do rio, eles não conseguiam sair do lugar.


A atriz disse que eles decidiram, então, se segurar em algumas pedras próximas. Camila conseguiu, mas Domingos não se movia. "Olhei para ele e pensei: 'Está assustado, vou voltar para ajudá-lo'. Não tinha noção do que estava acontecendo. Eu dizia: 'Calma, está tudo bem, pode vir', mas ele não vinha. Ele não saía do lugar e não falava nada. Foi estranho. Ele parecia paralisado".


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"A única coisa que ele dizia era: 'Cá, não tô conseguindo'", relembrou a atriz, que relatou ter voltado para o lugar onde estava Domingos para puxá-lo pelo braço, mas ele não saía do lugar. "Eu queria mostrar para ele que dava para ir para as pedras e que estava tudo bem".


"Quando ele submergiu pela segunda vez, foi aí que eu entendi o que estava acontecendo. Eu entendi que eu não podia ir lá, porque era algo maior do que eu imaginava. Não sabia o que era, mas sabia que não poderia ir lá. Eu sabia que não poderia salvá-lo", contou Camila.


"Em nenhum momento, ele me agarrou. Ele me salvou. Ele sabia o que estava acontecendo, ele me deu a oportunidade de viver, ele me deu essa chance", relembrou. "Eu vi o último olhar dele. Ele não estava desesperado, era [um olhar] de muita tristeza, ele não queria ir. Ele estava cheio de vida, rodeado por uma família linda", finalizou.

O que disse o terapeuta

Em um post que está se tornando muito popular nas redes sociais, o terapeuta Jordan Campos sugere que Domingos sofreu uma crise de paralisia traumática. De acordo com ele, o que aconteceu foi um afogamento passivo motivado por uma paralisia traumática.


“[...]Quando, no entanto acontece a paralisia (o que costumamos chamar nos animais de fingir de morto), a função racional do cérebro praticamente é desligada. O cérebro acredita que poupar energia física e mental (já que não se sabe o que fazer) é o melhor plano”, escreveu o terapeuta.


Segundo Jordan, o grito de Camila Pitanga teria, também, provocado uma reação no ator: “O grito da Camila, sem querer, acionou uma outra função que é a da desistência pelo pavor. Ele então, que já estava na paralisia, ao escutar o grito (segundo este raciocínio biológico-comportamental) diminui mais ainda o tônus muscular (fica com as pernas bambas) e afundou. Era uma esperança até de ele 'acordar' da paralisia e reagir com o grito. Mas as condições físicas e naturais do rio já deviam estar insuportáveis e ele se foi, de forma terrível”.


“Entender por que o Domingos paralisou não vai nos levar a uma viagem segura. Pode até ser por um conflito de infância com água, ou até algo que aconteceu dentro da barriga da mãe dele, quando ele era um feto que nadava nas águas e tinha um cordão umbilical preso ao pescoço, por exemplo. Muitas possibilidades”, finalizou.

 Leia a postagem do terapeuta na íntegra:


“CRISE DE PARALISIA TRAUMÁTICA” - Uma visão psicológica sobre o que realmente aconteceu com o Domingos Montagner --- Muita gente veio me perguntar sobre o que eu achei da entrevista da Camila Pitanga no fantástico, relatando como se deu a tragédia com o ator. Pediram-me uma opinião psicológica do fato e de seu relato. Todos claro, com a grande angústia ou curiosidade de tentar entender o que aconteceu. Então vamos lá, que o que vou explicar pode ajudar muita gente:


Na análise corporal e verbal da Camila podemos entender que todo o discurso dela é íntegro, cinestésico e não aconteceu em nenhum momento nenhum detalhe que sugerisse dúvida no seu relato. Foram muitas piadas de mau gosto disparadas contra a atriz, e muitos queriam assistir para encontrar algo que sugestionasse uma conspiração para fofocar – este o grande mal moderno, mas falaremos disso em outro texto. 


Uma coisa no entanto ficou bem clara. O ator Domingos Montagner passou por uma crise de PARALISIA TRAUMÁTICA devido a um choque emocional. Vou explicar: Quando estamos frente a um conflito o nosso cérebro dá apenas duas opções ativas – ou você enfrenta ou foge do perigo. E para isto libera uma grande carga de adrenalina que migra dos intestinos e cabeça para os membros. A intenção é dar força e circulação aumentada para braços e pernas na escolha de enfrentar ou fugir. No caso do Domingos, enfrentar e fugir estavam convergidos na mesma opção. Enfrentar a correnteza e o redemoinho da região, e fugir deles dependiam da carga de adrenalina para fazer braços e pernas baterem, e eram ali, a mesma coisa. Porém, no relato da Camila, ela deixou claro que ele não conseguiu fazer nenhuma das duas coisas. Um redemoinho não impede de mexer os braços ou dar um grito, por exemplo. Ela ainda gesticula na entrevista, com os braços simulando um nado, como se em seus profundos pavores ela não tenha entendido por que ele não reagiu desta forma. 


Existe o que chamamos de afogamento passivo que é quando a vítima parece se deixar levar em silêncio pelo afogamento, e sempre isso vai ser motivado pela paralisia traumática. Pois existem os afogamentos eufóricos, onde a pessoa se bate toda e reage, e que nem sempre acaba bem. Eu fui vítima de afogamento. Estava num mar agitado e entrei no que chamam de "barravento" onde você não consegue se locomover. Fiquei preso alí e lutei muito nadando e mergulhando sem sucesso. Até que comecei a boiar quando senti cãibras. Tive a sorte de ter sido salvo por dois salva-vidas em tempo. Então sempre que a resposta a um afogamento for passiva é paralisia traumática.


O que parece claro é que o ator foi vitimado pela crise de paralisia em conjunto com a força do redemoinho que aconteceu nas águas e provavelmente segurou sua pernas. Quando enfrentamos ou fugimos, nosso cérebro mantém as funções racionais e inteligentes ativas, para que possamos com estratégia sair do problema. Quando, no entanto acontece a paralisia (o que costumamos chamar nos animais de fingir de morto), a função racional do cérebro praticamente é desligada. O cérebro acredita que poupar energia física e mental (já que não se sabe o que fazer) é o melhor plano. Você já deve ter assistido a alguns vídeos de caçadas, onde o Leão avança sobre a zebra e ela cai sem ao menos levar uma mordida. Aquilo é paralisia traumática. O sistema nervoso da zebra faz as contas rápido e vê que se correr o leão pega, e se enfrentar vai morrer.


 Então paralisa as forças para poupar energia no intuito de dar um bote e conseguir fugir. O que muitas vezes dá certo. No caso do Domingos, o sistema dele, por alguma causa que falaremos a seguir, travou – e ele ficou em função racional baixa e sem condições de usar a carga de adrenalina. Como se fosse uma criança indefesa. Isso até a Camila gritar socorro, que foi quando ele afundou pela primeira vez. O grito da Camila, sem querer, acionou uma outra função que é a da desistência pelo pavor. Ele então, que já estava na paralisia, ao escutar o grito (segundo este raciocínio biológico-comportamental) diminui mais ainda o tônus muscular (fica com as pernas bambas) e afundou. Era uma esperança até de ele “acordar” da paralisia e reagir com o grito. Mas as condições físicas e naturais do rio já deviam estar insuportáveis e ele se foi, de forma terrível.


Isso acontece todos os dias com muitas pessoas, mas não sabemos. Seja nas águas, nas estradas, em acidentes domésticos, brigas, assaltos. Muitas pessoas morrem diariamente por paralisia traumática. A Camila coitada, só teve o recurso de enfrentar. E fez isso até o fim - ela tentou chegar até ele por duas vezes. Tentou encorajá-lo. Tentou chamar alguém com seu grito.


Entender por que o Domingos paralisou não vai nos levar a uma viagem segura. Pode até ser por um conflito de infância com água, ou até algo que aconteceu dentro da barriga da mãe dele, quando ele era um feto que nadava nas águas e tinha um cordão umbilical preso ao pescoço, por exemplo. Muitas possibilidades. E a notícia ruim é que não podemos evitar a paralisia traumática, porque o comando para ela surgir está cravado em nosso inconsciente, que com a ajuda de nosso cérebro faz as contas do momento. Podemos nos achar os mais fortes e preparados e sermos traídos pela paralisia em momentos graves.



Toda a tragédia pública nos oferece a reflexão e tomadas de novas normas e entendimentos para tentarmos evitar futuras. Meu objetivo como terapeuta é contribuir para um entendimento lógico dentro das nossas limitadas possibilidades de compreensão do todo que nos cerca, sem me ousar a ter certezas absolutas em nada. Luz para a família do Domingos e para a Camila Pitanga. 
Jordan Campos – Terapeuta Clínico
@jordanzcampos



Paralisia traumática pode ter sido a causa?

A psicóloga e psicoterapeuta Andreia Calçada, especialista em neuropsicologia, explica, primeiramente, que não existe um termo cunhado como “crise de paralisia traumática” que defina uma doença, transtorno ou distúrbio. No entanto, essas palavras possuem um significado intrínseco que faz referência a um trauma anterior sendo revivido.


“Quando dizemos que o Domingos Montagner sofreu o acidente porque estaria revivendo um trauma anterior com água ou algo do tipo, estamos apenas especulando sobre algo que não temos pleno conhecimento”, pontua a especialista.


Sobre a reação frente o perigo extremo, como aconteceu com o ator, a psicóloga explica que a reação do corpo é liberar uma quantidade muito grande de hormônios, como a adrenalina, que estimulam um aumento do fluxo sanguíneo para braços e pernas, além de provocar um aumento da frequência cardíaca e pressão arterial, todos esses mecanismos que fazem parte da reação de fuga.


Existem situações, no entanto, em que esse excesso hormonal, em conjunto com o pânico, o estresse e ansiedade causam uma paralisia, mas não são todos os casos desse tipo motivados por traumas. “No caso de Domingos, ele sequer mexeu os braços ou esboçou uma possível fuga, portanto, isso pode ter acontecido, sim, mas não temos como afirmar com certeza”, finaliza. 


Fonte: VIX -Escrito por Manuela Pagan

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